Salto no abismo


Ela pensa que sabe voar ou ela sente que sabe voar e isso lhe imprime confiança na hora de se jogar do sofá. Eu conto até três e disparo, energicamente, o "e já". É o gatilho esperado. Poderia contar até dez ou até cem, ela sempre espera o gatilho, nunca antes do "e já". Então ela pega impulso e salta do sofá com os braços abertos igual o Superman.


Seu eu pudesse a colocaria numa redoma ou qualquer coisa dentro de um campo de forças. Sei que um dia ela irá se machucar. Cairá mais grave além dos joelhos ralados e verterá mais sangue do que se pode limpar com um chumaço de algodão. Irá gritar com o ardor do merthiolate ou mercúrio. Usará algum band-aid colorido na perna ou testa e só a possibilidade disso já me dói. 


Estou deitado em um colchão estendido na sala e se algo sair errado ela cairá na espuma. Ela fica um segundo no ar igual um drone doméstico. Tem os braços e as pernas abertas igual aos paraquedistas quando saltam a quilômetros do chão. A seguro com as mãos espalmadas entre o peito e os sovacos e me ocorre a cena em que Olímpico de Jesus suspende Macabéa no ar, no romance A hora da estrela, de Clarice Lispector. Este, dentre os seus livros, é o meu preferido.


Antes do salto no abismo alcochoado ela solta um sorrisinho com os dentes pequenos e espaçados e em dois ou três anos esses dentes cairão abrindo janelas escuras. Então jogaremos os dentes no telhado e ela encherá a boca com água e soprará entre o sorriso banguelo esguichos de cuspes. Ela solta um sorrisinho e salta no abismo sem um pingo de medo.