Crônica de acordar no meio da noite


O King Kong e o Godzilla ficavam atrás do diabo-tinhoso. Pareciam labradores esperando a ordem de ataque: piskpisk, pega! O diabo-tinhoso preparava-se para cuspir fogo e aquilo me acertaria.


― Foram eles? ― meu avô acendia a luz e espantava todos. 


As mãos de vô Zevíto pareciam garras e galhos secos. Achava que ele fosse meio bicho e meio mato. A velhice caía e tirava seu pedigree, mas ainda assim o velho tangia aquelas bestas para o inferno de que haviam escapado: o Godzilla, o King Kong e o diabo-tinhoso. Tangidos.


Alguns dias o sono pesava em meu avô e eu ficava sozinho com os demônios escapulidos.


― Já disse para fechar os olhos, eles vão embora! ― meu avô esticava a mão apontando lonjuras. 


***


O quarto de minha filha é abafado e o ventilador gira para lá e para cá. A boca aberta mostra os dentinhos de coelho. Dali escorre um fio de baba que faz poça no travesseiro. Fecho-lhe a boca que volta a abrir lentamente.


Com o que estará sonhando minha filha? Talvez uma poça de lama. Ela e a Peppa, pulando. Talvez ela quebre o dinossauro do George. Quebrar é com ela. Quebrar, lascar, moer, triturar… Tudo que lhe é entregue, se devolvido, possui alguma avaria.


― Quebrou, pai. Quebrou! ― diz, já se desinteressando daquilo e buscando outra coisa para, novamente, voltar com o seu "quebrou pai, quebrou!"


Já é práxis: acordará no meio da madrugada. Levantará da cama montessoriana, a casa escura… O King Kong e o Godzilla a sua espreita. O Gargamel, o Gatuno, o Gaston… Todos esperando o piskpisk do mesmo diabo-tinhoso que atormentava-me. Poderia o raio da minha infância cair sobre ela? Agora eu seria a mão de garra e galho que tangeria aquelas bestas escapadas. Agora eu seria o vô Zevíto.


Que nada! Minha filha é vacinada contra demônios ou talvez os ignore na boa. Possa ser, porventura, dessas espécies que nunca se abalam frente ao perigo: a Claire Underwood, a Diana (para além da Gal Gadot) ou a Clarice Starling. No caminho de seu quarto até a minha cama é possível que mande os demônios se calarem, "shiu shiu", com o dedo indicador na boca e as sobrancelhas franzidas.


Ela chega em meu quarto. Belisca minhas pálpebras, puxa a barba e, às vezes, solta um miado de gato abandonado. Acordo! A coloco no meio da cama e ela se aninha. Uma ou duas horas depois estará atravessada, empurrando-me para o abismo com pesadas inconscientes. Durmo o resto de tempo equilibrando-me num palmo de colchão. 


O King Kong, o Godzilla e o diabo-tinhoso torcem por minha queda, decerto.