Hora de dormir

Minha filha entregará os pontos! É possível que exista confusão em sua cabeça e as imagens estejam diluindo. Possa acontecer de escutar algum som indecifrável, algo entre bramidos e murmúrios. Agora minha filha não cantareja o hit da Barbie Roberts ou as toadas dos Ugly Dolls. Seu trinado vai empoleirando. Lembra um radinho de pilhas fracas. Pilhas que, no meu tempo de menino, a gente colocava no congelador para recarregar. Uma crença que ninguém sabia de onde vinha.


Uma ponta da fralda está amarrada na chupeta. A outra ponta forra a minha clavícula, acolchoando. É assim que ela gosta de pré-dormir. Um ritual de tantos que já possui. Ritual ou pantinho. A chupeta é sugada com força, à maneira da Meg Simpson. A única chupeta intacta de milhões dilaceradas por dentes caninos, afiados e afoitos.


Minha filha é dessas crianças magras. Das que comem forrageiramente e mantém o calibre seco. "Magra de ruim", como se diz. Então às vezes a chamo 'magricelinha'. Outras vezes a chamo 'cibitinha'. Fui, no meu tempo, também assim, seco: peito batido e costelas expostas. Algum vento mais agitado me varreria para o além. Precavia, segurava em postes e grades. Qualquer coisa chumbada em ferro e cimento.


Minha filha é magra, contudo minhas vértebras lombares sofrem contrição e curvo para trás. "Não é o peso", disse um dia o professor, "é o tempo que você suporta que pesa”. O professor também era magro. Corcunda e magro. Engelhado e magro. "Um garrancho", diziam os alunos. "Este pedaço de giz não pesa nadica” dizia com o braço estendido, “mas em dez minutos seu peso será insuportável. O que pesa é o tempo!"


Agora as vértebras lombares estalavam insistentes. Pedras lascadas a saírem faíscas. Já é a velhice? Decerto! Curvo-me, ignoro as avarias da coluna e pouso o corpinho da minha filha na cama montessoriana. Sua boca aberta solta um filete de baba e aquilo inundará a fronha. Fecho-a.


Pernilongos zumbem no quarto. Criaturas que habitam frestas, móveis e caixas. Serezinhos de algum submundo. Lembro do veneno SBP, poucas borrifadas acabariam com essa orquestra. O veneno emana fetidez que entontece, trava a respiração, leva ao coma, adverte a esposa. Ela: mãe zelosa, tigra farejando perigo. 


A esposa traz uma raquete elétrica. Irá caçar pernilongos. Os bichos começam a pipocar. Pequenas fagulhas, fios de fumaça e um fedor de corpos queimados. A raquete viaja de um canto para o outro. Pipocos, fumaças e abates.


Minha filha dorme, indiferente a chacina que acontece em seu quarto. Acordará no meio da madrugada e irá aninhar-se em nossa cama. Dormirá atravessada, deixando apenas a beirada para os pais. Mas isso é assunto para a crônica do próximo sábado. Até lá!