Os pés de Charcot-Marie-Tooth - parte 01



Dei que a minha existência seria um levantar e cair no limbo. E mais que uma metáfora, isso era uma condenação. Acontecia que todas as criaturas um dia se punham de pé e, embora bambas e arquejantes, firmavam os primeiros passos. "Até o armário". Impunha-me desafios. "Até a mesa".


Eu: a lesma. A vida: a vastidão. E não haveria mal que não ficasse pior. Então a lesma teria que subir degraus, soleiras e montanhas escarpadas. Uma massa de modelar andante, a lesma: eu.


Aconteceu que nasci com a doença de Charcot-Marie-Tooth e isso me dera pés caídos para fora. Pés arriados como a árvore que crescesse pendida sobre o telhado de uma casa. O perigo de queda, a iminência de estragos, o chão, o subterrâneo. Para a árvore existiria o fio do machado e o proveito da madeira para o fabrico de portas, mesas, janelas… 


Também poderia cortar os meus pés fora. Jogá-los para um bicho feroz e ver a carne destroçada, os ossos talhados e cuspidos. Ficaria sem aqueles companheiros de nascimento? Seria um aleijão? E já não era, desde sempre? Manteria a crença que a tecnologia me daria pés de titânio. Sim, inúmeros atletas corriam em pistas paralímpicas com pés de espátulas. Sim, a tecnologia me poria em pé. 


A Charcot-Marie-Tooth me dera os pés arriados para fora, me impedira de correr, saltar, andar até uma esquina sem haver incômodo. Eu: tentativas sucessivas de firmar os passos. Eu e a aerodinâmica de chutar as pernas e pisar firme como quem esmaga baratas. Sim, agora achei a expressão. Toda a vida andei a pisar em baratas imaginárias. Passo a passo esmagando bichos asquerosos.